O projeto

 

O que nos faz sair de um ponto à outro? O que nos move a dizer, a estar presente em cada momento? Como fazer para que um corpo, em toda a sua complexidade, saia de um estado de inércia. Este projeto parte de questões íntimas, porém, públicas. Em um momento de desesperança e temor pelos tempos sombrios que se anunciam, diante da impotência presente, o que nos faz reexistir para resistir?

 

Um corpo gay, um corpo parte de uma minoria.

Como potencializar esse corpo e propor experiências de diálogo e enfrentamento diante do que está por vir?

O projeto Ações para Reexistir - Pesquisa e Criação Interdisciplinar, nasce das tumultuadas relações humanas em meio às eleições de 2018, quando se consolida no Brasil uma forte onda conservadora contra direitos humanos e políticas afirmativas. Um momento marcado por discursos de ódio, pelo fundamentalismo religioso, pela intolerância e, em um enfoque mais pessoal, pela sensação de despertencer à minha família e ao meu país.

Diante desta perspectiva sombria que se anunciava, eu, um homem branco, gay, chegando aos quarenta, além de tantas pessoas, é claro, nos perguntávamos: como resistir? De onde mover forças para ir em frente?

A partir dessas questões íntimas, porém públicas, o projeto começa a ser executado na prática em 2019 com a interlocução de três artistas convidadas: Hedra Rockenbach, Loli Menezes e Sandra Meyer.

Este projeto foi um mergulho em processos de criação de artistas de diferentes linguagens, buscando mapear e compreender quais são as forças propulsoras nos trabalhos de artistas e coletivos de artes tão distintas em suas naturezas e procedimentos. Em cada linguagem, o que move um corpo a agir e a mover espaços?

A partir de março de 2020, diante da pandemia da Covid-19, o percurso foi adaptado para o contexto das plataformas virtuais. Por meio destes encontros, e estimulado pelas trocas com as artistas convidadas, o processo gerou vídeos de estudo e ensaios fotográficos em diferentes momentos da pandemia, alguns deles publicados no perfil do instagram e no website do projeto, que abriga também um diário de processo, compartilhamentos de referências da pesquisa e outros textos de trabalho.

Antes, a perspectiva era explorar procedimentos de outras linguagens artísticas para mover um corpo em sala de trabalho por meio de encontros e trocas presenciais, estimulando a criação de uma futura metodologia física. Diante do isolamento social e, em especial, pela convivência com artes das quais eu tinha um repertório ínfimo, a percepção sobre o papel do corpo toma outros rumos.

 

Mapear outros corpos e seus impulsos. Assumir a pausa, escutar o esgotamento e a espera, acumular, implodir.

Nas palavras de Isadora Duncan: “Parar para poder mover”.

A primeira ação do projeto é a série de podcasts/videocats "CRIANÇA VIADA SHOW" na qual entrevisto com 6 artistas homossexuais catarinenses. Financiada com recursos da Lei Emergencial Aldir Blanc 2020, a série viria a público em 15 de maio de 2021, mas teve sua execução suspensa pela Prefeitura Municipal de Itajaí um dia antes de sua estreia, depois de denúncias de apologia a pedofilia e de ferimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disto o fomos acusados de fazer mau uso de recursos públicos por pregarmos a "ideologia de gênero" e a "sexualização de crianças". Mesmo após o Ministério Público arquivar as denúncias, reconhecendo que estas caracterizam instrumento de repressão e censura, a Prefeitura Municipal não voltou atrás e seguimos na justiça pela liberação dos episódios. 

Em novembro de 2021 chegamos ao fim do projeto com “NEVOEIRO”, um conjunto de cinco ações que entrelaçam, justapõem ou atravessam procedimentos de diferentes artes. Um território entre linguagens sobre resistir, lutar, recuperar o fôlego, seguir.

 

Existe sempre a necessidade de concluir, porém jamais me permitiria fechar as janelas.

 

Parece irônico, portanto, concluir um processo voltando à mesma pergunta que o criou: o que move um corpo a agir e a mover espaços?

 

Entre 2018 e 2021 há um trajeto, um ciclo, um infinito, um palimpsesto, uma espiral. Não sei. Tudo o que podemos constatar é que nenhum corpo atravessa ou move um espaço sem mover a si mesmo.

 

Atravessemos, pois. Adiante não seremos (jamais!) os mesmos.

Daniel Olivetto,

novembro de 2021