• Daniel Olivetto

Primeiros dias de trabalho com Sandra Meyer

Atualizado: Mar 5

28 a 31 de Outubro de 2019

Foto: Sandra Meyer

Primeira tarde (28/10/2019)


Mais nervoso que em dia de "date", cheguei na sala de dança do Sesc Itajaí, testei som, tirei o tênis, botei as joelheiras (melhor me prevenir) e Sandra chegou na sequência.


Começamos o trabalho no chão com sequências de alongamento, buscando perceber a entrega do peso, a respiração, o tônus, enfim, aqueles aspectos básicos da presença (“estar presente é tudo”). Aos poucos começamos a explorar diferentes níveis/alturas de movimentação (baixo, médio, alto), dinâmicas de impulsos (que partes do corpo começam o movimento ou a ação?), desequilíbrio e equilíbrio, diferentes formas de relação com o espaço (como eu movo o espaço e como o espaço me move?) e a sala vazia foi ganhando linhas, ações e ofegância... muita ofegância!


Trabalhamos com diversas formas de ir ao chão e ficar de pé, explorando diferentes apoios, velocidades, pausas, e outros modos de se movimentar e, então, tecnicamente falando, “o bicho foi pegando”. Em um dado momento eu estava improvisando sei lá o que no chão (já meio “na lona”), e Sandra foi empilhando colchonetes em cima de mim. A pessoa aqui já estava no limite do desespero por não saber mais o que fazer naquela sala vazia, e esse estímulo rendeu mais um tempo de ações como: tentar equilibrar todos os colchonetes à la número de palhaço, percebendo como o corpo se reorganizava para equilibrar meus objetos; e até uma homenagem ao Grupo Cena 11 e suas chocantes quedas, que eu fiz com colchonete, mas cheio de orgulho por mais esse sonho realizado. Piadas à parte, me jogar no chão repetidas vezes - de costas, de frente, de lado, de cambalhota - botou um bicho pra fora, e achei que de mim não saía mais nada dali em diante.


Depois partimos pra um exercício chamado “Pequena Dança”, que consiste em ficar parado de olhos fechados, percebendo os pequenos movimentos que o corpo faz para se manter no eixo, o que foi pra mim um momento de conexão e de presença super fortes, e que aos poucos foi me levando de volta para o espaço, explorando outras ações que eram como dilatações daqueles pequenos impulsos.


Não bastando a energia que essa mulher dispendeu me alongando, me empurrando e enchendo de estímulos dos mais diversos, Sandra ainda se colocou a improvisar comigo em um exercício de composição em dupla. Uma lindeza.



Segunda tarde (29/10/2019)


De novo começando pelo chão, buscando compreender que partes do corpo tocam ou não o piso e como podemos entregar o peso cada vez mais. Sandra puxava meus braços daqui, o pescoço pra lá, uma espécie de sessão de fisioterapia, já que meu ombro direito não anda muito bem. Sequências de alongamento no chão, e outros exercícios de movimentação. Um deles foi um exercício em que Sandra conduzia minha movimentação, trazendo uma atenção especial às oposições do corpo: cervical em oposição ao sacro, joelho em oposição à crista ilíaca, etc. São princípios de trabalho conhecidos - uma vez que já mexi muito esse corpinho em aulas de dança e sessões de treinamento de teatro -, mas que precisam ser redescobertos, no meu caso. Uma das premissas do projeto é redescobrir coisas que foram ficando pra trás, e diminuir certas ferrugens vão se criando se você deixar.


Eu havia entregado uma lista para Sandra que eu chamei de “Lista de Ações para Reexistir”, que continha desde coisas simples como “olhar o público nos olhos”, “estar com o público numa sala em silêncio”, “me movimentar amarrado ou preso a coisas que restrinjam a ação”, até ações mirabolantes como “cantar ‘I Will Survive’ (na versão do Cake) andando de patins e acompanhado de uma banda de rock” - acho que não temos orçamento para isso! Em meio a esse trabalho pelo espaço, pulando, rolando no chão e tentando fugir das coisas que eu já conheço (aquele velho dilema dos processos criativos), Sandra foi me dando vários estímulos que vinham dessa lista e outros que ela tinha preparado. Fui tentando sair do lugar comum, me expondo aos poucos e fomos criando um começo de intimidade. Estou impressionado que as meninas toparam trabalhar comigo. É sério! É sempre um negócio louco você entrar em sala com alguém, em especial quando não é uma oficina com um várias pessoas. Sou eu e ela ali naquela sala fazia tateando uma coisa que não sabemos ainda o que é, a partir de questões muito pessoais. Uma sala de trabalho é um espaço muito íntimo. Nosso segundo “date” foi um misto de levezas e de “Meu Deus, de quem foi a ideia de fazer esse projeto mesmo?!”


Um ponto chave do trabalho desta tarde foi uma improvisação que fiz com uma cadeira (o que seria do teatro sem a cadeira, não é mesmo?). Sandra foi provocando para que eu trabalhasse com a cadeira não apenas na perspectiva do ator fazendo ações com o objeto, mas também tentando deixar com que objeto fizesse algo comigo, como se não soubéssemos quem era a coisa e o sujeito.


Sandra me indicou um texto escrito pelo ensaísta, crítico e dramaturgo André Lepecki [nesse link] chamado “9 variações sobre coisas e performances”, no qual o autor observa que “um interesse em objetos, bem como uma proliferação incrível de coisas em obras recentes de dança, de performance e de instalação caracterizam a cena artística na atualidade” e que “um dos efeitos desse investimento e dessa proliferação é o de deslocar das noções de sujeito e objeto” (2012: p. 94). Fiquei pensando em duas coisas aqui que eu queria guardar: 1. A ação é uma das chaves da presença cênica, mas não agir também é uma ação (algum cânone já deve ter pensado nisso); 2) Só Deus sabe a emoção que a simples presença de uma cadeira na contra-luz ativa em mim.


Foto: Sandra Meyer

Cadeiras à parte, na metade final do trabalho Sandra compartilhou diversos vídeos e outras referências de performances que foram abrindo perspectivas diversas. Como ainda não existe uma ideia central para a primeira ação do projeto, tampouco um espaço ou temática que norteie tal ação, Sandra me encheu de referências de performances realizadas em diferentes países por artistas de formações diversas. Mais adiante vou fazer algumas postagens com alguns destes trabalhos por aqui no blog, para compartilhar um pouco dessas referências e inspirações.


Várias das referências que ela me mostrou são ações de “site specific”, ou seja, obras que são produzidas para um espaço específico, considerando sua história, forma e sentidos. Sandra sugeriu que uma das ações do projeto poderia ser um vídeo-arte de um “site specific”, ou seja, uma performance registrada em um audiovisual com uma direção pensada especialmente para o vídeo. Essa é uma prática que Sandra tem desenvolvido em seus projetos atuais, e que me revelam um pouco de suas afinidades e suas vontades. Uma chuva de referências foi passando pela cabeça depois dessa tarde.


Fomos tomar um café após a prática e falamos sobre vontades, coisas que acreditamos e muito sobre o que não queremos. Fomos compartilhando os nossos “nãos”. Sandra comentava sobre o quanto hoje na dança lhe interessa muito mais trabalhar sobre a ideia de um corpo atento aos estímulos, e menos sobre nossa ideia mais conhecida de um corpo dilatado para a ação. Gosto bastante desta possibilidade de encontro com o corpo. É um lugar novo pra mim, mas que dialoga com coisas que tenho pensado sobre atuação e performance, mas esse é um assunto para mais adiante.



Terceira tarde (30/10/2019)


Estou tentando terminar um livro do Paul Auster que me deprime demais e que se chama “O Inventor da Solidão”. É a terceira vez que começo, mas dessa vez parece que vai! Nesse livro, após receber a notícia da morte de seu pai, Auster reflete sobre a ausência dessa figura ao longo de sua vida, e tenta compreender aquele homem alheio, que olhava o mundo “através das névoas de sua solidão”. Embalado pela discussão sobre coisas e sujeitos do texto do Lepecki, esbarrei com uma passagem que fez um click aqui dentro: “A morte de um homem rouba-lhe seu corpo. Em vida, um homem e seu corpo são sinônimos; na morte, há o homem e há seu corpo. (...) Quando um homem entra numa sala e você lhe aperta a mão, não sente que está cumprimentanto sua mão, não sente que está cumprimentando seu corpo; você está cumprimentando o homem. A morte modifica isso.” Li esse trecho para Sandra no começo do ensaio e conversamos sobre o Auster, o Lepecki, o corpo, a presença, etc, e fomos pro chão.


Mais rolamentos e alongamentos para começar o trabalho de hoje. Pra iniciar a prática de improvisação Sandra tirou um rolo de 20 metros de elástico da bolsa e me perguntou: “Que parte do corpo você gostaria de imobilizar?”. Não tive dúvida alguma em dizer “as mãos” (“o ator e as mãos”... rendia um Doutorado). Amarramos as minhas mãos no elástico, o elástico nas janelas, na porta, nas cadeiras, e colocamos uma playlist de canções que eu havia criado com inspirações para o projeto ao longo do ano. Trabalhei de olhos fechados, ao som de um Radiohead aqui, de um silêncio acolá e, à medida que eu me mexia, ia ficando cada vez mais preso, porque cada movimento mexia uma cadeira, ou ameaçava quebrar uma maçaneta, arrebentar o elástico. A música que, de uma forma geral, sempre me ajuda muito nos processos de criação, ali não fez muito efeito. Eu estava tão literalmente atado, que o Tom Yorke cantando “No Surprises” (daquelas “músicas da vida”) naquela sala imensa mais me atrapalhava que ajudava. Sensação de extremo desconforto. Fui me locomovendo aos poucos, deitando no chão, levantando e me desatando do nó. Assim, falando, parece que durou dois segundos, mas ficamos um tempo nisso. Sandra botou o livro do Auster na minha mão. Num dado momento me sentei e li uma página qualquer. Mais adiante, Sandra começou a empilhar cadeiras na minha frente. Me empilhei em cima delas. Sandra empilhou mais umas duas ou três em cima de mim. Ficamos ali parados um tempo, eu e as cadeiras. Qualquer respiração poderia derrubar todas elas no chão. Ficamos ali um tempo em pausa. Foi o mais próximo que consegui de ser parte de uma pilha de coisas, acho.


Na sequência fizemos um exercício que consistia em criar uma pequena dramaturgia com objetos de nossas bolsas, usando uma mesa como palco. Cada um de nós tinha que apresentar uma pequena cena composta por 5 quadros, sugerir de onde o outro podia assistir, dizer onde havia um blackout para que o outro fechasse os olhos, etc. Cada um fez duas cenas. Minha segunda cena era uma sequência na qual, um caderno, uma agenda e o livro do Auster começavam fechados e, quadro a quadro, eram abertos e revelavam coisas diversas. Dentro a agenda abri numa pagina com uma fatura de cartão de crédito e uma lista de afazeres; no caderno, uma página em branco; no livro, um envelope perdido com um convite para assistir “As Três Irmãs”, da Traço Cia. de Teatro, de 2008. Eu estou tentando ler esse livro há 11 anos, é isso?


Foto: Sandra Meyer

Quarta tarde (31/10/2019)


Último dia de trabalho dessa primeira semana com Sandra. Assistimos mais alguns vídeos de performances, dessa vez de artistas como Felipe Acácio, Veronique Doisneau, Martha Soares, Volmir Cordeiro e William Forsythe. Farei alguns posts nas próximas semanas compartilhando algumas destas referências. São trabalhos que partem de questões extremamente pessoais e que reverberam no outro, ou seja, que apresentam questões sociais e políticas sobre o intérprete e seu entorno. Quem é esse corpo que dança? Que história ele carrega?


Falamos um pouco sobre a formação artística que está impregnada em nossos corpos, sobre o quanto o corpo é a nossa própria história. Sandra me contou sobre um trabalho que fez com a dançarina Diana Gilardenghi, uma performance autobiográfica chamada “Narrativas em Dois Corpos”, no qual entrelaçam suas trajetórias na dança, revisitam lugares do passado e pensam o presente. Fomos lembrando de histórias curiosas sobre as coisas que já fizemos e as ideias que fomos (re)criando sobre o nosso corpo ao longo do tempo.


Assistimos um vídeo do William Forsythe, e fiquei boquiaberto ao vê-lo deslocando o centro do movimento para diversas partes do corpo - uma de suas contribuições para a dança em sua trajetória, acompanhando uma sucessão de mulheres incríveis que foram tirando a dança do lugar “aéreo” do ballet clássico e levando-a um tanto mais pro chão, assim revendo os lugares de onde parte a ação.


Tanto na dança quando no o teatro, a ideia de que o impulso e a ação vem do centro do corpo é bastante conhecida - ainda que esta noção já tenha sido repensada e que diversos artistas tenham dado outras contribuições no sentido inverso, apresentando outras formas de se colocar em cena. Bem lá no início dos meus estudos no teatro, participei de cursos e outras práticas de treinamento com princípios que vinham da Antropologia Teatral, e de outras metodologias que buscavam explorar o centro de energia, rumo ao que havia de mais profundo no corpo. Depois tive acesso a outras técnicas e metodologias, mas, via de regra, todas baseadas na ideia do centro do movimento ser sempre a coluna. Sandra foi apresentando referências de dança que revelam outras possibilidades de se mover na cena. Não é minha praia - pra contar em detalhes -, mas é lindo como as transições na dança entre o final do século XIX e os dias de hoje foram construindo outras formas de se pensar o corpo na cena. O mesmo movimento ocorreu à respeito do corpo do intérprete no teatro, de modos diferentes, mas com diversos pontos de encontro ao longo do caminho. Uma arte contaminando a outra, como não poderia deixar de ser.


Chão, rolamentos, alongamentos, pra ver se um dia eu chego no nível daqueles dançarinos incríveis dos vídeos. A partir do vídeo do Forsythe, Sandra me propôs experimentar essa alternância dos centros de movimentação. Fui me jogando no espaço. Em um dado momento, quando eu parei de pensar “que parte eu uso agora pra começar o movimento?”, o trabalho foi fluindo e gerando algumas ações interessantes. Um exercício que me deu muita vontade de aprofundar. Sandra fez um vídeo, que posto a seguir. Pra quem já viu o Forsythe, favor reduzir a expectativa antes de apertar o play.



Essas quatro primeiras tardes em sala abriram diversas portas. Ao mesmo tempo, ajudaram a perceber o quanto as questões centrais do projetos podem se afunilar para uma discussão mais específica em cada ação, o bom e velho “recorte”. Tudo é muito aberto ainda. Aberto, mas longe de ser vago. Me animou pensar que a primeira ação do projeto, que acontecerá no começo de 2020, seja um encontro dessas vontades. "Site-especific", objeto e sujeito, de onde parte a ação, que histórias nosso corpo carrega, o íntimo que reverbera no público. Algumas pistas para o trabalho a seguir.


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