• Daniel Olivetto

O Espelho no Espelho - Um Labirinto

1984

Michael Ende

(Tradução: Reinaldo Guarany)



"Um tecido negro e pesado, que se perdia para cima e para os lados, na escuridão, pendia em dobras perpendiculares, as quais, movidas por imperceptíveis lufadas de vento, ondulavam de vez em quando para a frente e para trás.


Disseram-lhe que aquela era a cortina do palco e que assim que ela começasse a se levantar, ele deveria iniciar imediatamente sua dança. Haviam-lhe repetido com insistência que não se deixasse irritar com nada, pois de vez em quando pareceria que a platéia nada mais era, de ponta a ponta, que um abismo vazio e sombrio mas, vez por outra, pareceria também que se estava olhando para o tumulto de uma feira-livre, ou para uma rua movimentada, uma sala de aula ou um cemitério, mas tudo isso seria apenas alucinação. Resumindo: sem se preocupar com absolutamente nada, com qualquer impressão que tivesse, estivesse alguém assistindo-o ou não, ele deveria começar a dançar seu solo, assim que a cortina subisse.


Portanto, lá estava ele, o fêmur e canela cruzados, a mão direita caída, a esquerda repousada na cintura, esperando o começo. De vez em vez, se o cansaço o forçava, ele trocava essa posição, transformando-se, por assim dizer, no contrário de sua imagem no espelho.


No entanto, a cortina não se levantava.


A pouca luz que vinha de algum lugar no alto, estava concentrada sobre ele. No entanto, era tão fraca que ele não conseguia ver os próprios pés. O círculo de luminosidade que o cercava, deixava que ele reconhecesse apenas o pesado e negro tecido à sua frente. Esse era seu único ponto de referência, pois o palco jazia em completa escuridão e era extenso como uma planície.


Ele se perguntou se, por acaso, haveria algum bastidor, e o que representaria. Não seria importante para sua dança, mas ele gostaria de saber em que cenografia o veriam. Num salão de festas? Numa paisagem? Com certeza, a iluminação também mudaria quando a cortina fosse levantada. Nesse momento, essa pergunta também seria respondida. Lá estava ele, o fêmur e canela cruzados, a mão esquerda caída, a direita negligentemente apoiada na cintura. Vez por outra, quando o cansaço o forçava, ele mudava de posição, dessa vez porém transformando-se no contrário de sua imagem no espelho refletida num espelho.


Ele não podia se distrair, pois a cortina poderia ser levantada a qualquer momento, quando ele deveria estar presente de corpo e alma. Sua dança começava com um potente toque de timbales e um furioso rodopio de saltos. Se ele perdesse a entrada, tudo iria por água abaixo, nunca mais ele alcançaria o compasso perdido. Ele tornou a percorrer em pensamento todos os passos, as piruetas, entreatos, jettées e arabesques. (termos técnicos franceses para designar passos de balé clássico).


Ficou satisfeito, tinha tudo presente em sua mente. Tinha certeza de que iria bem. Já ouvia os aplausos explodirem como os barulhos do mar. Ele também recordou-se do remercier (termo técnico de origem francesa que, empregado na balé, no teatro, ópera ou recital, indica a flexão do corpo em agradecimento aos aplaus), pois ele era importante. Quem o fizesse bem poderia assim prolongar consideravelmente os aplausos.


Enquanto pensava nisso tudo, continuava ali, esperando, o fêmur e canela cruzados, a mão direita caída, a esquerda recostada de leve na cintura. As vezes, quando o cansaço crescente o forçava, ele mudava a postura, colocando-se novamente na posição contrária à da imagem no espelho da sua imagem do espelho refletida num espelho.


A cortina ainda não havia sido levantada e ele perguntava-se sobre a possível causa. Será que haviam esquecido que ele já se encontrava ali no palco, pronto para começar? Será que o estariam procurando no camarim, na cantina do teatro ou, quem sabe, até mesmo em casa, desesperadamente? Será que ele deveria fazer-se notar na escuridão do palco, gritando ou acenando? Ou será que não estariam à sua procura, mas a apresentação havia, isso sim, sido postergada por alguma razão qualquer? Será que ela havia sido suspensa sem que lhe tivessem feito uma comunicação? Talvez todos já tivessem ido embora, sem se lembrar de que ele encontrava-se ali, esperando sua entrada em cena. Havia quanto tempo ele estava ali? Afinal de contas, quem o destinara para ali? Quem lhe havia dito que aquela era a cortina e que, assim que fosse levantada, ele deveria começar a dançar? Ele começou a calcular quantas vezes se havia transformado em sua imagem no espelho e na imagem do espelho de sua imagem no espelho, mas imediatamente afastou de si esse tipo de reflexão, para não ser surpreendido pelo súbito levantar da cortina e, confundido, sem ter entrado em sua parte, ficar olhando desamparado para o público. Não, ele tinha de continuar tranqüilo e concentrado!


Mas a cortina não se mexia.


Pouco a pouco sua excitação inicial de felicidade foi tornando-se uma profunda irritação. Ele tinha a sensação de estar sendo vexado. Preferiria sair correndo do palco para ir se queixar aos gritos em algum lugar, atirando no rosto de alguém todo seu desapontamento, toda sua raiva. Mas não sabia ao certo para onde deveria correr. O pouco que via à sua frente, a cortina, era sua única orientação. Se saísse desse lugar, ficaria andando às apalpadelas e, infalivelmente, ficaria desorientado. E também podia muito bem acontecer de a cortina ser levantada nesse exato momento, e soar as batidas dos timbales. Então ele estaria no lugar errado, as mãos esticadas para a frente, qual mãos de cego, possivelmente de costas para o público. Impossível! Só de imaginar uma tal situação, ele ficou quente de vergonha. Não, não: ele tinha mesmo de ficar ali onde se encontrava, sentindo-se bem ou mal, e esperar para ver quando – e se – lhe dariam algum sinal. Portanto, ele continuou, o fêmur e canela cruzados, a mão esquerda caída frouxamente, a direita apoiada pesadamente na cintura. De tempos em tempos, quando o cansaço o forçava, ele mudava a pose, transformando-se sabe-se lá por qual enésima vez em sua imagem no espelho.


Num dado momento, ele perdeu a esperança de que a cortina fosse ser aberta alguma vez, mas no mesmo instante ele soube que não poderia sair de seu lugar, já que, mesmo indo contra todas as expectativas,não se Num dado momento, ele perdeu a esperança de que a cortina fosse ser aberta alguma vez, mas no mesmo instante ele soube que não poderia sair de seu lugar, já que, mesmo indo contra todas as expectativas, não se podia excluir a possibilidade de que ela se abrisse. Ele já havia desistido de ter esperanças ou de se irritar. Só podia ficar ali onde estava, acontecesse o que acontecesse, ou não acontecesse. Já não se importava com sua apresentação, se esta seria um sucesso ou um fiasco, ou mesmo se iria ter lugar.


E posto que sua dança já não significava mais nada para ele, foi esquecendo-se uns após os outros de todos os passos e saltos. No decorrer da espera, ele chegou até mesmo a esquecer o que estava esperando. Mas continuou parado, fêmur e canela cruzados, diante dele o pesado pano negro que se perdia para cima e para os lados, na escuridão."



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