• Daniel Olivetto

Haverá festa com o que restar

2018

Francisco Mallmann


Hoje compartilho um dos poemas do escritor e performer curitibano Francisco Mallmann, parte de uma publicação absurdamente linda intitulada "Haverá festa com o que restar" (Editora Uratau, 2018).


O encontro com a obra reabriu uma fissura gigante aqui, relembrou o princípio do processo [falei sobre isto neste post] e enviadeceu novamente os caminhos aqui.


Grato pelos acasos, pelo amigo Vitor Schulli postar um vídeo lendo este mesmo poema em 28 de Junho, celebrando o dia internacional do Orgulho LGBTQIA+.

E ao Francisco, por esse terremoto!




"a bicha morre, outra vez, ao som de alguma música brega, cla chora antes de ir, ela se arrepende por muita coisa, cla não se arrepende da própria vida, ela chora pelo modo como a vida foi inscrita no espaço que lhe coube, tanta coisa por fazer, ela não vai se desculpar, cla aprendeu a responder às pancadas, a bicha morre, outra vez, ao som de sirenes insultos, nenhum motivo para parar o trânsito, solicitar luto, cogitar políticas, reformar sistemas, mudar mentalidades, alterar culturas, a bicha morre, as amigas sofrem, alguns outros lamentam, secretamente aliviados por não serem eles, os seus filhos, seus amigos, as pessoas próximas, algum tio, primo, cunhado, foi aquele lá, aquele rapaz, a bicha morre, e é claro, afinal, a vida dela, provavelmente é um horror, essa bicha que morreu, provavelmente envolve drogas e depravação e ela provavelmente deveria ter algum caso, algum amante mais velho, talvez um pai de alguma família, algum garoto carente, a bicha que morreu, cla, eu acho, era estudiosa, muito atormentada, cu acho que cla era muito sofrida, ela era uma jovem realmente triste, depressiva, a bicha que morreu, a bicha morre e alguém diz que pena elas são tão divertidas, as bichas, elas são tão animadas, tão para frente, a bicha morre, ela deve ter provocado algum homem, deve ter imitado uma putinha, cla deve ter sido bem safada, a bicha morre, talvez ela tenha até merecido, cu acho que mereceu, foi deus, diabo, sei lá, a bicha morre, alguém respira melhor porque isso é um câncer, não sei o que houve com o mundo, a bicha morre, acho que tiro, espancamento, linchamento, a bicha morre ca familia coitada, devia ser terrivel, a bicha morre, deve estar em algum lugar melhor, acho que não no céu, acho que mais para o inferno, a bicha morre, cheia de bens, abarrotada de coisas, cheia de joias, a bicha morre, cla era um risco, ela era um perigo, a bicha morre de aids com certeza, com certeza é aids, o nome dela, ninguém sabe, a bicha morre e ninguém perguntou da onde vinha, para onde queria ir, a bicha que morreu era meio anônima, meio mendiga, não veio ninguém dizer que sabia, que conhecia, a bicha morre, pele preta suburbana, corpo caído, no meio do mundo, no mcio da rua, a bicha morre e só dá pena medo e nojo, a bicha se morresse de amor ninguém saberia."




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