• Daniel Olivetto

A Tenda

2006

Margareth Atwood



"Você está numa tenda. Do lado de fora, é uma grande imensidão gelada. É uma desolação urrante. Há pedras, gelo e areia, e pântanos profundos onde você poderia afundar sem deixar vestígios.


Há ruínas também, muitas ruínas; dentro e ao redor das ruínas, há instrumentos musicais quebrados, banheiras velhas, ossos de mamíferos terrestres extintos, sapatos sem pés, pedaços de automóvel. Há arbustos espinhosos, árvores retorcidas, muito vento. Mas você tem uma pequena vela em sua tenda. Você pode se manter aquecido. Muitas coisas estão urrando lá fora, na desolação urrante. Muitas pessoas estão urrando. Algumas urram de dor porque aqueles a quem amavam morreram ou foram mortos, outras urram em triunfo porque causaram a morte dos seres amados dos seus inimigos.


Algumas urram por socorro, outras por vingança, outras por sangue. O barulho é ensurdecedor.


Também é assustador. Os urros estão se aproximando de você, da sua tenda, onde você está agachado em silêncio, torcendo para não ser visto. Você está assustado por si mesmo, mas especialmente por aqueles que ama. Você quer protegê-los. Quer juntá-los dentro da sua tenda, como medida de proteção.


O problema é que a sua tenda é feita de papel. Papel não irá impedir a entrada de nada. Você sabe que precisa escrever nas paredes, nas paredes de papel, na parte interior da tenda. Você precisa escrever de baixo para cima e de trás para frente, precisa cobrir todo o espaço disponível no papel. Parte da escrita tem de descrever os urros que soam do lado de fora, noite e dia, no meio das dunas de areia e dos pedaços de gelo e das ruínas e ossos e assim por diante; ela deve contar a verdade sobre os urros, mas isso é difícil porque você não consegue ver através das paredes de papel e, portanto, não pode ser exato acerca da verdade, e não quer ir lá fora, no meio da desolação, para ver por si mesmo. Parte da escrita tem de ser sobre as pessoas que você ama e a necessidade que sente de protegê-las, e isso é difícil também porque nem todas elas conseguem ouvir os urros do mesmo jeito que você, algumas acham que eles soam como um piquenique acontecendo na floresta, como uma banda de música, como uma festa na praia, elas não querem ficar presas num espaço tão apertado com você e sua pequena vela e seu medo e sua irritante obsessão com caligrafia, uma obsessão que não faz sentido para elas, e ficam tentando escapar por baixo das paredes da tenda.


Isso não o impede de escrever. Você escreve como se sua vida dependesse disso, a sua vida e a vida delas. Você imprime em taquigrafia suas personalidades, suas feições, seus hábitos, suas histórias; você muda os nomes, é claro, porque não quer criar evidências, não quer atrair o tipo errado de atenção para essas pessoas que você ama, algumas das quais - você está descobrindo agora - não são pessoas, e sim cidades e paisagens, lagos e roupas que você costumava usar e cafés da vizinhança e cães há muito perdidos. Você não quer atrair os urradores, mas eles são atraídos assim mesmo, como que pelo faro: as paredes da tenda de papel são tão finas que eles podem ver a luz da sua vela, podem ver a sua silhueta e, naturalmente, ficam curiosos porque você pode ser uma presa, pode ser algo que eles podem matar e soltar urros em comemoração e depois comer, de um jeito ou de outro. Você é muito visível, você se fez visível, você se traiu. Eles estão se aproximando, se juntando; estão dando um tempo aos seus urros para espiar, para farejar.


Por que você acha que essa sua escrita, essa grafomania numa caverna frágil, esses rabiscos de um lado a outro e de cima a baixo das paredes do que está começando a parecer uma prisão, é capaz de proteger alguém? Inclusive você mesmo. Isso é uma ilusão, a crença de que essa sua garatuja é uma espécie de armadura, uma espécie de amuleto, porque ninguém sabe melhor do que você quão frágil a sua tenda é na realidade. Já se ouve o barulho de pés forrados de couro, de rastejos e arranhões, de uma respiração estridente. O vento entra, a sua vela cai e lança uma labareda, e uma aba solta da tenda se incendeia, e pela abertura enegrecida você pode ver os olhos dos urradores, vermelhos e brilhantes à luz do seu abrigo de papel em chamas, mas você continua escrevendo porque o que mais você pode fazer?"


In: ATWOOD, Margaret. A Tenda. Trad. Léa Viveiros de Castro. - Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

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