• Daniel Olivetto

A primeira reunião

Atualizado: Mar 5


Dez meses depois do projeto tomar forma no papel, nos encontramos para uma reunião/café no Mercado Sehat, no centro de Florianópolis. Eu, Hedra, Loli e Sandra. É muito curioso quando você convida pessoas para trabalhar em um novo projeto. Primeiro os nomes vão para o papel, depois os currículos viram anexos de um formulário, você visualiza um caminho e, enfim, você está em volta de uma mesa com pessoas tão diferentes e tão fascinantes.


Durante meses trabalhei em diversos projetos como ator, produtor, diretor e designer. 2019 começou intenso e já está acabando. De forma geral foi um ano de pouca prática em sala como ator. Dirigi uma montagem com a Cia. Rústico Teatral (Joinville), apresentei trabalhos do repertório da Cia. Experimentus - com a qual trabalho em Itajaí há 20 anos -, fiz projetos gráficos de eventos de música e teatro, de livros e outros. Meu projeto pessoal, este que está começando agora, foi sendo colocado mais pra frente porque queria começá-lo com a cabeça mais fresca, em um momento em que pudesse pensar mais nele que em outros trabalhos. Uma certa ilusão, mas o fato é que nesse tempo entre o formulário e esse café, fui me colocando em movimento, ansioso para para começar. Comecei a fazer aulas de dança contemporânea, voltei pra academia pra ganhar força muscular (tem que ter força pra reexistir, né?), fiz oficinas do performance, me botei a ler, ouvir música e meu olhar foi se abrindo em especial para as artes visuais, a performance e a dança - um reflexo de realizar um projeto de pesquisa como este e uma tentativa de diminuir as lacunas que existem na minha formação pelo pouco convívio com essas linguagens. Enfim, chegou a hora de começar, senão a gente enlouquece de tanto pensar.


Revisei a estrutura do projeto com as meninas, mesmo entendendo que, em se tratando de uma pesquisa, existem diversas possibilidades de reestruturar o cronograma e outros aspectos para que o processo flua de uma maneira que seja potente para ambos.


O trabalho foi pensado inicialmente para ser desenvolvido por meio de três intercâmbios, cada um com uma artista, resultando em uma ação construída em diálogo com cada uma delas. Uma das primeiras questões propostas nessa primeira reunião diz respeito a como envolver as três artistas convidadas de uma maneira mais transversal, assim, cada uma poderia contribuir nos três processos, acompanhando a pesquisa na sua totalidade.


Foram várias questões propostas pelas três, no intuito de clarearmos o caminho que será trilhado e os procedimentos a serem adotados no percurso. Fiquei com uma tarefa de propor questões mais concretas, o que prontamente atendi com um “sim, claro!”. Quando saí da reunião, mesmo feliz pelo primeiro encontro, confesso que achei que a pesquisa parecia mais aberta do que eu imaginava - um mini-desespero do qual sou bem íntimo.


Minha formação é atravessada por diversas experiências com o que chamamos de “dramaturgia de processo”, criações nas quais o ponto de partida foi quase sempre uma névoa, uma página em branco, mesmo que houvesse um conto, um romance ou uma dramaturgia previamente escrita como disparadores. Foram diversas experiências que me ensinaram a entender o tempo de cada coisa acontecer. Você começa achando que não sabe nada do que vem pela frente, o tal mini-desespero de não saber o que você quer. Com o tempo fui aprendendo a ver que isso não tem a ver com não saber o que eu quero, e sim com saber o que eu não quero. Esse é um ponto que sempre me move, mesmo que hoje eu tenha mais consciência do quanto o meu trabalho, tanto no grupo quanto em outras experiências, é sempre muito processual. Não sei chegar numa sala de ensaio com diretrizes muito organizadas ou definidas. Há sempre perguntas e há sempre coisas que não quero fazer. Quando eu dirijo, por exemplo, eu preciso ver os atores em cena em um processo de improvisação, leitura de texto e/ou outras práticas pra compreender o que eu não quero. O “não” sempre move o meu trabalho. Vou afastando para o lado as coisas que não quero fazer, pra encontrar o “sim”. Aqui estamos.


Na próxima semana começo o trabalho em sala com Sandra. Ela é a única das três com quem já estive em sala, quando fui seu aluno na Graduação e no Mestrado no Ceart / Udesc. Achei importante começar com ela, por ser uma pesquisadora do corpo, mais ainda pelas minhas memórias de seus trabalhos com os viewpoints, uma metodologia que foi bem importante de conhecer em meados de 2010 e que me ajudou a entender o papel da escuta no trabalho de um artista processual. Vamos começar escutando o vazios e os “nãos”.

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